05-07-2009
Dois aniversários: no dia 3 de Julho o do Rui Ferreira, hoje o da Antónia. Como escreveu Teixeira de Pascoaes, o ser humano não envelhece, apenas "foge da sua sombra anterior para a sua luz futura".
Decidi apresentar um curriculum vitae on-line. Chamei-lhe Diáspora, pelo sentido de dispersão ou por um certo sentido de exílio subjacente à condição humana. Trata-se de um projecto inacabado, que procurarei manter actualizado.
Decidi apresentar um curriculum vitae on-line. Chamei-lhe Diáspora, pelo sentido de dispersão ou por um certo sentido de exílio subjacente à condição humana. Trata-se de um projecto inacabado, que procurarei manter actualizado.
03-07-2009
Hoje, na apresentação de Histórias de poucas palavras, na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira, Amarante, em vez de um texto académico ou de crítica literária, li uma carta aberta (entreaberta) à Maria Eulália Macedo:

Fotografia . Elsa Cerqueira
Querida Eulália
Escrevi-te uma carta. Uma carta entreaberta. Uma carta de amor. Hoje não serei grave, porque não é dia de endurecer o rosto e a alegria é para os vivos, como disse o Almada, a coisa mais séria da vida! Hoje é um dia alegre, querida Eulália, porque se reeditam as tuas Histórias de poucas palavras, que não é um livro, mas uma prova de amor, a confissão poética de que o esquecimento, a morte e as trevas que tantas vezes escurecem os nossos corações não terão a última palavra. As tuas Histórias de poucas palavras não são apenas páginas impressas, amortalhadas numa capa bonita; não se trata de um livro como outros livros: fala do milagre de ser e existir no espaço e no tempo, fala do sabor das amoras, da alegria do mundo. Eu não li as tuas Histórias de poucas palavras, querida Eulália, eu vivi-as tão intensamente, que a tua mãe foi, por um momento, a minha mãe; depois foi o cheiro húmido da terra, a intimidade de um gesto condescendente com a morte, a vida inteira redimida numa palavra, algo mais puro ainda; depois foram os retratos, os antigos retratos que habitam o teu mundo, Eulália, esses fantasmas que habitam o meu mundo, como se tivéssemos vivido na mesma casa, na mesma casa desde sempre, porque a tua casa é antiga como o Marão, antiga como o mundo.
Escrevi-te uma carta, esta carta entreaberta. Uma carta de amor. Escrevi-a porque sei como são as manhãs transparentes de Fevereiro, porque também eu suspendo a respiração à hora da chegada do correio. Escrevi-a porque nasci num mundo de homens que cabe nas caixas que guardam os livros que herdaste da tua avó paterna; mas estas tuas Histórias de poucas palavras não cabem neste livro, como não cabem nos livros que herdaste da tua mãe; nelas existe um mundo de mulheres, de mulheres que são lugares recuados em que as mãos descobrem os filhos, esses lugares fundos, luminosos por dentro; essas mulheres que são como mesas para que os filhos cresçam em seu redor; que são casas em que há afectos, como brinquedos, espalhados pelo chão; as mulheres de Histórias de poucas palavras são isso e outra coisa, ou nem uma coisa nem outra, não têm nome ou chamam-se Maria Ondina, Olímpia, Maria Branca ou Lídia; podem ser as mulheres do Marão (de que não falam as Crónicas da Raça) ou as mulheres da tua Rua; podem ser as mulheres da minha rua, da minha infância, mulheres sem idade, carpindo as perdas, lambendo as feridas ou amadurecendo o útero na opacidade comovida da sua juventude.
Querida Eulália, escrevi-te esta carta porque conheço a tua terra como se nela tivesse nascido ou nela tivesse morrido, antes desta diáspora; conheço o teu Rio, comove-me sempre a tua Nossa Senhora da Ponte, com o seu sorriso de granito e o Filho nos braços. Também eu amo Pascoaes, Eulália: recordo-me do Poeta a enrolar um cigarro no escrupuloso labor dos dedos telúricos, recordo-me dos versos: "Quem és tu? De onde vens? Na tua fronte/ Paira o vago crepúsculo infinito/ Da distância... […] Há nas tuas palavras um abismo./ Ouvindo-as logo sinto uma vertigem,/ E, em sobressalto, chora e se lastima/ O que, em mim, é vedado, oculto e virgem./ A parte indefinida do meu ser/ Ama a sombra espectral em que desvairas.../ E nem, ao menos, posso compreender/ Esta força amorosa que me leva/ Para a tua loucura!"
Escrevi esta carta, querida Eulália, porque conheço o rumor dos dias, a lenta passagem das horas. Escrevi-a porque conheci a tua casa: o S. Jorge que guarda a entrada nas pausas da sua luta eterna contra a serpe; o granito por fora, as madeiras por dentro; os velhos livros, os retratos espectrais, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Escrevi esta carta de amor porque me comove a tua lucidez, o modo como arrastas a voz oracular, que se exprime em aforismos e se sobrepõe ao meu pensamento. Escrevi-a, querida Eulália, porque escuto a urze e conheço o silêncio das tardes de Outono, quando os pássaros não voam e as nuvens se deitam na cama dos rochedos mais altos.
Nas tuas Histórias de poucas palavras pulsa uma comovida humanidade, um amor raro pela terra, sem asfixia; um amor raro pelas pessoas, sem paternalismos ou maternalismos; um amor raro que habita quem acredita e inaugura nas suas palavras um emergente «Ciclo do Amor». Querida Eulália, não sei como dizer-te que sinto que guardas o futuro. Nasceste em Amarante; mas tu não pertences a Amarante, nem ao mundo, que o mundo é exíguo para pessoas com as tuas dimensões. Tu pertences, nas palavras de Sophia, à raça daqueles que "percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra". Tu pertences a Deus.
Serás tu o Cristo, Maria Eulália? "Não casei, não ganhei dinheiro, nem sei de sistemas políticos para salvar a humanidade". O que é que te salva, Maria Eulália? O que é que move a tua mão escrevente. O poeta José Tolentino Mendonça disse que "o que move a mão escrevente é uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. […] «E a ti, o que é que te salva?» Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!"
Vou terminar esta carta, Eulália. Desculpa-me. O que poderia eu dizer sobre ti ou sobre as tuas Histórias de poucas palavras? O que sei eu? Tinhas meio século de vida quando eu vi pela primeira vez a luz; nasceste no Equinócio da Primavera, eu nasci no Equinócio de Outono, talvez por isso a tua juventude e a minha velhice nos torne tão próximos. Por estes dias, as tuas Histórias de poucas palavras salvaram-me: "Nunca mais temerei os anjos metálicos da angústia e da destruição, podem vir purificar-me os lábios com uma brasa de fogo e de insatisfação". E sempre que me lembrar de ti, estremecerei com os versos de Herberto Helder: "Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta/ do gosto, o entusiasmo do mundo". JRT

Histórias de poucas palavras, 2ª ed., Amarante, 2009.
Maria Eulália Macedo nasceu em Amarante, no dia 21 de Março de 1921. Publicou Construção do vento norte (1968), Raízes (1970), Histórias de poucas palavras (1971) e As moradas terrenas (1994). Os seus caminhos cruzam-se com os caminhos de Teixeira de Pascoaes, Almada Negreiros, Maria Ondina Braga, Agostinho da Silva ou Alexandre Pinheiro Torres.
Fotografia . Elsa Cerqueira
Querida Eulália
Escrevi-te uma carta. Uma carta entreaberta. Uma carta de amor. Hoje não serei grave, porque não é dia de endurecer o rosto e a alegria é para os vivos, como disse o Almada, a coisa mais séria da vida! Hoje é um dia alegre, querida Eulália, porque se reeditam as tuas Histórias de poucas palavras, que não é um livro, mas uma prova de amor, a confissão poética de que o esquecimento, a morte e as trevas que tantas vezes escurecem os nossos corações não terão a última palavra. As tuas Histórias de poucas palavras não são apenas páginas impressas, amortalhadas numa capa bonita; não se trata de um livro como outros livros: fala do milagre de ser e existir no espaço e no tempo, fala do sabor das amoras, da alegria do mundo. Eu não li as tuas Histórias de poucas palavras, querida Eulália, eu vivi-as tão intensamente, que a tua mãe foi, por um momento, a minha mãe; depois foi o cheiro húmido da terra, a intimidade de um gesto condescendente com a morte, a vida inteira redimida numa palavra, algo mais puro ainda; depois foram os retratos, os antigos retratos que habitam o teu mundo, Eulália, esses fantasmas que habitam o meu mundo, como se tivéssemos vivido na mesma casa, na mesma casa desde sempre, porque a tua casa é antiga como o Marão, antiga como o mundo.
Escrevi-te uma carta, esta carta entreaberta. Uma carta de amor. Escrevi-a porque sei como são as manhãs transparentes de Fevereiro, porque também eu suspendo a respiração à hora da chegada do correio. Escrevi-a porque nasci num mundo de homens que cabe nas caixas que guardam os livros que herdaste da tua avó paterna; mas estas tuas Histórias de poucas palavras não cabem neste livro, como não cabem nos livros que herdaste da tua mãe; nelas existe um mundo de mulheres, de mulheres que são lugares recuados em que as mãos descobrem os filhos, esses lugares fundos, luminosos por dentro; essas mulheres que são como mesas para que os filhos cresçam em seu redor; que são casas em que há afectos, como brinquedos, espalhados pelo chão; as mulheres de Histórias de poucas palavras são isso e outra coisa, ou nem uma coisa nem outra, não têm nome ou chamam-se Maria Ondina, Olímpia, Maria Branca ou Lídia; podem ser as mulheres do Marão (de que não falam as Crónicas da Raça) ou as mulheres da tua Rua; podem ser as mulheres da minha rua, da minha infância, mulheres sem idade, carpindo as perdas, lambendo as feridas ou amadurecendo o útero na opacidade comovida da sua juventude.
Querida Eulália, escrevi-te esta carta porque conheço a tua terra como se nela tivesse nascido ou nela tivesse morrido, antes desta diáspora; conheço o teu Rio, comove-me sempre a tua Nossa Senhora da Ponte, com o seu sorriso de granito e o Filho nos braços. Também eu amo Pascoaes, Eulália: recordo-me do Poeta a enrolar um cigarro no escrupuloso labor dos dedos telúricos, recordo-me dos versos: "Quem és tu? De onde vens? Na tua fronte/ Paira o vago crepúsculo infinito/ Da distância... […] Há nas tuas palavras um abismo./ Ouvindo-as logo sinto uma vertigem,/ E, em sobressalto, chora e se lastima/ O que, em mim, é vedado, oculto e virgem./ A parte indefinida do meu ser/ Ama a sombra espectral em que desvairas.../ E nem, ao menos, posso compreender/ Esta força amorosa que me leva/ Para a tua loucura!"
Escrevi esta carta, querida Eulália, porque conheço o rumor dos dias, a lenta passagem das horas. Escrevi-a porque conheci a tua casa: o S. Jorge que guarda a entrada nas pausas da sua luta eterna contra a serpe; o granito por fora, as madeiras por dentro; os velhos livros, os retratos espectrais, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Escrevi esta carta de amor porque me comove a tua lucidez, o modo como arrastas a voz oracular, que se exprime em aforismos e se sobrepõe ao meu pensamento. Escrevi-a, querida Eulália, porque escuto a urze e conheço o silêncio das tardes de Outono, quando os pássaros não voam e as nuvens se deitam na cama dos rochedos mais altos.
Nas tuas Histórias de poucas palavras pulsa uma comovida humanidade, um amor raro pela terra, sem asfixia; um amor raro pelas pessoas, sem paternalismos ou maternalismos; um amor raro que habita quem acredita e inaugura nas suas palavras um emergente «Ciclo do Amor». Querida Eulália, não sei como dizer-te que sinto que guardas o futuro. Nasceste em Amarante; mas tu não pertences a Amarante, nem ao mundo, que o mundo é exíguo para pessoas com as tuas dimensões. Tu pertences, nas palavras de Sophia, à raça daqueles que "percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra". Tu pertences a Deus.
Serás tu o Cristo, Maria Eulália? "Não casei, não ganhei dinheiro, nem sei de sistemas políticos para salvar a humanidade". O que é que te salva, Maria Eulália? O que é que move a tua mão escrevente. O poeta José Tolentino Mendonça disse que "o que move a mão escrevente é uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. […] «E a ti, o que é que te salva?» Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!"
Vou terminar esta carta, Eulália. Desculpa-me. O que poderia eu dizer sobre ti ou sobre as tuas Histórias de poucas palavras? O que sei eu? Tinhas meio século de vida quando eu vi pela primeira vez a luz; nasceste no Equinócio da Primavera, eu nasci no Equinócio de Outono, talvez por isso a tua juventude e a minha velhice nos torne tão próximos. Por estes dias, as tuas Histórias de poucas palavras salvaram-me: "Nunca mais temerei os anjos metálicos da angústia e da destruição, podem vir purificar-me os lábios com uma brasa de fogo e de insatisfação". E sempre que me lembrar de ti, estremecerei com os versos de Herberto Helder: "Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta/ do gosto, o entusiasmo do mundo". JRT

Histórias de poucas palavras, 2ª ed., Amarante, 2009.
Maria Eulália Macedo nasceu em Amarante, no dia 21 de Março de 1921. Publicou Construção do vento norte (1968), Raízes (1970), Histórias de poucas palavras (1971) e As moradas terrenas (1994). Os seus caminhos cruzam-se com os caminhos de Teixeira de Pascoaes, Almada Negreiros, Maria Ondina Braga, Agostinho da Silva ou Alexandre Pinheiro Torres.
02-07-2009
No dia 25 de Junho o Equinócio de Outono celebrou 4 anos. Hoje, quase 600 'posts' depois, este blogue tem cerca de 3 mil 'visits' e 5 mil 'page views' por mês. Obrigado a todos os amigos que fazem deste espaço um lugar de encontro.

Ontem presidi à 400ª sessão catecumenal. Desde 1995/96, passaram pelo Centro Catecumenal mais de 400 catecúmenos, dos quais 368 receberam os sacramentos da iniciação cristã. Ontem, depois da mesa-comum, encerrámos o itinerário 2008/09 com a sessão catecumenal e a celebração da Eucaristia. A Ana Luís, a Inês Fontoura e a Joana juntaram-se a nós.
É um privilégio trabalhar com a Ana, o Fernando e o Leonel. Constituiu para mim uma bênção incomensurável ter participado do itinerário deste grupo de neófitos. A Ana Luís chegou atrasada, mas trouxe a redenção à porção de vida que se partilha na mesa-comum e se conjuga no presente do indicativo.

Ontem presidi à 400ª sessão catecumenal. Desde 1995/96, passaram pelo Centro Catecumenal mais de 400 catecúmenos, dos quais 368 receberam os sacramentos da iniciação cristã. Ontem, depois da mesa-comum, encerrámos o itinerário 2008/09 com a sessão catecumenal e a celebração da Eucaristia. A Ana Luís, a Inês Fontoura e a Joana juntaram-se a nós.
É um privilégio trabalhar com a Ana, o Fernando e o Leonel. Constituiu para mim uma bênção incomensurável ter participado do itinerário deste grupo de neófitos. A Ana Luís chegou atrasada, mas trouxe a redenção à porção de vida que se partilha na mesa-comum e se conjuga no presente do indicativo.
01-07-2009
Eis que acabou Junho. Ontem foi o último dia para o envio de obras concorrentes ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria. Nestes últimos dias chegaram inúmeros inéditos. Obrigado. O júri será constituído por Fernando de Castro Branco, Fernando Guimarães e Jorge Melícias. A decisão do júri desta 2ª edição do Prémio de Poesia Guilherme de Faria será anunciada no dia 6 de Outubro de 2009 no site/blog do Poeta e no site/blog da Cosmorama.
29-06-2009

O Sr. D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, foi ordenado presbítero há 30 anos, no dia 29 de Junho de 1979.
Hoje tive uma reunião de preparação da Oficina de Poesia Barcelona 09. Terminei a paginação de O vento soprado como sangue (do João Moita) e de Yguarani (do Wilmar Silva). O ano de trabalho da Cosmorama está quase a terminar; mas, já depois de termos encerrado a agenda, decidimos reabri-la: dia 18 de Julho (sábado), pelas 22 horas, apresentação de Yguarani, 'poética não completa' de Wilmar Silva, poeta brasileiro (Minas Gerais) que nasceu em 1965 e que é responsável pelo projecto de pesquisa de poesia de língua portuguesa Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética.
28-06-2009
Em Maio, nas II Sementes de Leitura, na ESE Paula Frassinetti, conheci o ilustrador Luís Silva. Fiquei muito impressionado com a qualidade do seu trabalho.
Nesse mesmo dia, convidei-o para integrar um projecto editorial, desenhando retratos de poetas portugueses; o primeiro seria o de Guilherme de Faria. Na 6ª-feira chegou ao meu e-mail a proposta do Luís Silva:
.jpg)
Fiquei, naturalmente, muito entusiasmado; o retrato é notável. No e-mail em que veio anexado, o Luís escreveu: "Em termos pictóricos, o universo simbólico de que me poderia apropriar é rico e enigmático. Optei por aquela noite povoada por uns astros que são as chamadas 'formas platónicas'. Aquelas em particular saíram de esboços de Leonardo da Vinci. Todas essas referências contribuem para dar densidade ao trabalho e creio que é sobretudo aí que reside a sua alma."
Nestes dias, em que regresso ao trabalho na dissertação de doutoramento, o mais recente retrato do Poeta é um óptimo 'reforço positivo'. Aproveitei para actualizar o blogue e a secção de imagens do site do Guilherme de Faria.
Nesse mesmo dia, convidei-o para integrar um projecto editorial, desenhando retratos de poetas portugueses; o primeiro seria o de Guilherme de Faria. Na 6ª-feira chegou ao meu e-mail a proposta do Luís Silva:
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Fiquei, naturalmente, muito entusiasmado; o retrato é notável. No e-mail em que veio anexado, o Luís escreveu: "Em termos pictóricos, o universo simbólico de que me poderia apropriar é rico e enigmático. Optei por aquela noite povoada por uns astros que são as chamadas 'formas platónicas'. Aquelas em particular saíram de esboços de Leonardo da Vinci. Todas essas referências contribuem para dar densidade ao trabalho e creio que é sobretudo aí que reside a sua alma."
Nestes dias, em que regresso ao trabalho na dissertação de doutoramento, o mais recente retrato do Poeta é um óptimo 'reforço positivo'. Aproveitei para actualizar o blogue e a secção de imagens do site do Guilherme de Faria.
Ontem o Fernando de Castro Branco telefonou-me a dizer que os livros da Cosmorama regressaram aos destaques da FNAC. É uma boa notícia, depois de uma fase em que a editora perdeu alguma visibilidade nas livrarias.
Estou a ouvir a Inês Viterbo a cantar, numa gravação feita pelo Juca no CLF. Há alguns dias vi Purga Valsa Bege, uma interessante curta-metragem do José Diogo Magro. A Inês e o Zé Diogo pertencem a um grupo de miúdos admiráveis que terminaram o 12º ano. Conheci-os no contexto de sala de aula em 2001/02, tinham apenas 10 anos. Quantos Caminhos partilhámos? Partem agora para novos caminhos e eu guardo a alegria profunda de ter assistido e participado no seu crescimento.
Quando eu era criança o inverno era frio, muito frio; o verão era quente, muito quente; no tempo das chuvas, chovia; no tempo da canícula, o calor era mesmo muito intenso. Há 30 anos o clima era tão estável como a minha vida ou a casa da minha infância. Há 20 anos eu saí da casa da minha infância e a minha vida tornou-se uma diáspora; o inverno nunca mais foi tão frio e o estio nunca mais foi tão quente. Agora percebo que é provável que as alterações climáticas não se devam ao aquecimento global, mas à separação dos meus pais.
Estou a ouvir a Inês Viterbo a cantar, numa gravação feita pelo Juca no CLF. Há alguns dias vi Purga Valsa Bege, uma interessante curta-metragem do José Diogo Magro. A Inês e o Zé Diogo pertencem a um grupo de miúdos admiráveis que terminaram o 12º ano. Conheci-os no contexto de sala de aula em 2001/02, tinham apenas 10 anos. Quantos Caminhos partilhámos? Partem agora para novos caminhos e eu guardo a alegria profunda de ter assistido e participado no seu crescimento.
Quando eu era criança o inverno era frio, muito frio; o verão era quente, muito quente; no tempo das chuvas, chovia; no tempo da canícula, o calor era mesmo muito intenso. Há 30 anos o clima era tão estável como a minha vida ou a casa da minha infância. Há 20 anos eu saí da casa da minha infância e a minha vida tornou-se uma diáspora; o inverno nunca mais foi tão frio e o estio nunca mais foi tão quente. Agora percebo que é provável que as alterações climáticas não se devam ao aquecimento global, mas à separação dos meus pais.
27-06-2009
Em Dezembro, na evocação da memória de Maria José Teixeira de Vasconcelos (sobrinha de Teixeira de Pascoaes), conheci Maria Eulália Macedo, uma Sr.ª admirável, com 88 anos (nasceu no dia 21 de Março de 1921). Ontem fui com a Karin e com o Mário a sua casa, um lugar granítico e antigo como o mundo. A sensação de entrar naquele lugar é verdadeiramente indescritível: a intensidade telúrica das casas históricas de Amarante, o granito por fora, as madeiras por dentro; um S. Jorge em tamanho real que acompanhava as procissões, na sua eterna luta contra a serpe; os velhos livros, os paramentos, as armas de fogo, os retratos espectrais dos antepassados, os ornamentos religiosos, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim em socalcos, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Eu já conhecia a Eulália, mas não assim, não em casa... Ela tem uma lucidez perturbadora, arrasta a voz como um fantasma e fala como um oráculo: uma verdadeira epifania de poesia e de graça. A sua voz sobrepõe-se ao nosso pensamento e detém-se em memórias precisas: Teixeira de Pascoaes a enrolar um cigarro, Almada Negreiros debruçado na varanda, Maria Ondina Braga a rezar.
Ontem vivi uma experiência verdadeiramente soteriológica.
Na próxima 6ª-feira (3 de Julho) são reeditadas as Histórias de poucas palavras (com prefácio de Maria João Reynaud). Eu falarei um pouco sobre o livro e sobre a autora na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira (Amarante), pelas 19 horas.

No dia 24 de Junho fui jantar à Ribeira de Gaia. Quando cheguei, o céu estava cinzento e o ar húmido; do outro lado do rio, o Porto… uma imagem impressiva resultou numa fotografia impressionista, conseguida com o telemóvel.
Ontem vivi uma experiência verdadeiramente soteriológica.
Na próxima 6ª-feira (3 de Julho) são reeditadas as Histórias de poucas palavras (com prefácio de Maria João Reynaud). Eu falarei um pouco sobre o livro e sobre a autora na Biblioteca Municipal Albano Sardoeira (Amarante), pelas 19 horas.

No dia 24 de Junho fui jantar à Ribeira de Gaia. Quando cheguei, o céu estava cinzento e o ar húmido; do outro lado do rio, o Porto… uma imagem impressiva resultou numa fotografia impressionista, conseguida com o telemóvel.
Hoje reuni com o Luís Silva e com o António Jorge para trabalhar na Unidade Lectiva 1 do manual de EMRC para o Ensino Secundário do Secretariado Nacional de Educação Cristã, sobre Política, Ética e Religião. Trata-se de um óptimo trabalho do Luís Silva, amigo e companheiro desde o tempo em que estudámos Teologia na UCP, no final da década de 90. Nesta Unidade Lectiva 1, li um interessante texto de Jorge Luís Borges, 'in memoriam' JFK.

Jorge Luís Borges (1899-1986), caricatura de Luís Silva.
Esta bala é antiga.
Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevideu, Arredondo, que passara muito tempo sem ver ninguém para que o soubessem sem cúmplices. Trinta anos antes, o mesmo projéctil matou Lincoln, por obra criminosa ou mágica de um actor que as palavras de Shakespeare tinham convertido em Marco Bruto, assassino de César. Em meados do século XVII a vingança serviu-se dela para dar morte a Gustavo Adolfo da Suécia, a meio da pública hecatombe de uma batalha. Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigração pitagórica não é apenas própria dos homens. Foi o cordão de seda que no Oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroçaram os defensores do Álamo, foi o punhal triangular que ceifou o colo de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi veneno que o chefe cartaginês guardava num anel de ferro, foi a serena taça que Sócrates bebeu num entardecer. No dealbar do tempo foi a pedra que Caim lançou contra Abel e será muitas coisas que hoje nem sequer imaginamos e que poderão acabar com os homens e com o seu prodigioso e frágil destino.
Jorge Luís Borges, Obras Completas, II, p. 229.
Nota: O 1º Luís Silva (1973) é teólogo e o 2º Luís Silva (1968) é ilustrador.

Jorge Luís Borges (1899-1986), caricatura de Luís Silva.
Esta bala é antiga.
Em 1897 disparou-a contra o presidente do Uruguai um rapaz de Montevideu, Arredondo, que passara muito tempo sem ver ninguém para que o soubessem sem cúmplices. Trinta anos antes, o mesmo projéctil matou Lincoln, por obra criminosa ou mágica de um actor que as palavras de Shakespeare tinham convertido em Marco Bruto, assassino de César. Em meados do século XVII a vingança serviu-se dela para dar morte a Gustavo Adolfo da Suécia, a meio da pública hecatombe de uma batalha. Antes, a bala foi outras coisas, porque a transmigração pitagórica não é apenas própria dos homens. Foi o cordão de seda que no Oriente recebem os vizires, foi a fuzilaria e as baionetas que destroçaram os defensores do Álamo, foi o punhal triangular que ceifou o colo de uma rainha, foi os obscuros cravos que atravessaram a carne do Redentor e o lenho da Cruz, foi veneno que o chefe cartaginês guardava num anel de ferro, foi a serena taça que Sócrates bebeu num entardecer. No dealbar do tempo foi a pedra que Caim lançou contra Abel e será muitas coisas que hoje nem sequer imaginamos e que poderão acabar com os homens e com o seu prodigioso e frágil destino.
Jorge Luís Borges, Obras Completas, II, p. 229.
Nota: O 1º Luís Silva (1973) é teólogo e o 2º Luís Silva (1968) é ilustrador.
24-06-2009
Ontem, pela primeira vez, conseguimos lançar com êxito um balão de S. João; esperámos alguns minutos, enquanto subia, até se confundir com uma estrela e desaparecer.
Hoje dediquei a manhã ao trabalho na dissertação de doutoramento. Estou a fazer uma leitura minuciosa do primeiro livro do Guilherme de Faria (Poemas, 1922), com fichas cheias de anotações sobre o 'leitmotiv', os conceitos estruturais e as especificidades de cada composição.
Recebi por correio, da parte do Adelino Pires, três primeiras edições de Teixeira de Pascoaes: Elegias (1912), Arte de ser português (1915) e Duas conferências em defesa da paz (1950). Recebi ainda duas obras concorrentes ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria (regulamento) e um postal de Schloss Moritzburg, enviado pela Maria José e pelo Klaus.
Passei a tarde a brincar com os meus filhos; depois a Ana deu banho à Beatriz e eu tratei dos rapazes; ajudei na dinâmica do jantar e fui despedir-me do João Alfredo (que regressa ao Brasil na 6ª-feira): jantámos na Ribeira de Gaia com o José Pedro (pároco de Espinho) e com o José Alfredo (pároco de Valongo), amigos e companheiros do curso de Teologia.

Na semana passada, alguém perguntou-me como é que, com tantas coisas, eu estabelecia prioridades; disse-lhe que na minha vida as prioridades estão bem definidas; depois expliquei-lhe que dormia pouco...
Hoje dediquei a manhã ao trabalho na dissertação de doutoramento. Estou a fazer uma leitura minuciosa do primeiro livro do Guilherme de Faria (Poemas, 1922), com fichas cheias de anotações sobre o 'leitmotiv', os conceitos estruturais e as especificidades de cada composição.
Recebi por correio, da parte do Adelino Pires, três primeiras edições de Teixeira de Pascoaes: Elegias (1912), Arte de ser português (1915) e Duas conferências em defesa da paz (1950). Recebi ainda duas obras concorrentes ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria (regulamento) e um postal de Schloss Moritzburg, enviado pela Maria José e pelo Klaus.
Passei a tarde a brincar com os meus filhos; depois a Ana deu banho à Beatriz e eu tratei dos rapazes; ajudei na dinâmica do jantar e fui despedir-me do João Alfredo (que regressa ao Brasil na 6ª-feira): jantámos na Ribeira de Gaia com o José Pedro (pároco de Espinho) e com o José Alfredo (pároco de Valongo), amigos e companheiros do curso de Teologia.

Na semana passada, alguém perguntou-me como é que, com tantas coisas, eu estabelecia prioridades; disse-lhe que na minha vida as prioridades estão bem definidas; depois expliquei-lhe que dormia pouco...
23-06-2009
Lá fora já estão a assar as sardinhas (entremeada para mim, que não gosto dos tradicionais peixinhos). Tenho sido assíduo às vigilâncias de exames no CLF e ao ginásio. Reconheço a importância do conceito de perspectiva, que nos permite relativizar o modo como entendemos, assumimos e integramos a realidade. Ontem, no ginásio, escolhi o segundo tapete a contar da parede e comecei a correr (corro normalmente cinco quilómetros); um senhor magro e alto (seguramente com mais de um metro e noventa) corria no tapete ao lado do meu; enquanto corríamos, olhei para o espelho e senti-me gordo e baixo. Hoje, sensivelmente à mesma hora, escolhi o mesmo tapete; ao meu lado estava um senhor gordo e baixo (seguramente com menos de um metro e setenta); enquanto corríamos, olhei para o espelho e senti-me magro e alto. Eu peso oitenta quilos e meço um metro e oitenta, mas isso pode realmente não ser muito relevante.
22-06-2009
Eu não tenho paciência para escrever uma carta aberta à ministra da Educação. Por isso, resta-me divulgar o produto da paciência dos outros, neste caso do Prof. Santana Castilho:

Senhora ministra: Dentro de poucos meses partirá para um exílio dourado. Obviamente que partirá, seja qual for o resultado das eleições. É tempo de lhe dizer, com frontalidade, e antes que o ruído da campanha apague o meu grito de revolta, como a considero responsável por quatro anos de Educação queimada. Este qualificativo metafórico ganhará realismo à medida que aqui for invocando os falhanços mais censuráveis, alguns apenas, dos muitos que fazem de si, politicamente, uma predadora do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçada, tenha a coragem de marcar o contraditório, cara a cara, onde e quando quiser, perante professores, alunos, pais e demais cidadãos votantes. Por uma vez, sairia do ciclo propagandístico em que sempre se moveu.
A senhora ministra falhou estrondosamente com o sistema de avaliação do desempenho dos professores, a vertente mais mediática da enormidade a que chamou estatuto de carreira. A sua intenção não foi, nunca, como lhe competia, dignificar o exercício de uma profissão estratégica para o desenvolvimento do país. A senhora anda há um ano a confundir classificação do desempenho com avaliação do desempenho e demonstrou ignorar o que de mais sério existe na produção teórica sobre a matéria. Permitiu e alimentou mentiras inomináveis sobre o problema. O saldo é claro e incontestável: da própria aberração técnica que os seus especialistas pariram nada resta. Terá os professores classificados com bom, pelo menos, exactamente o que criticava quando começou a sua cruzada, ridiculamente fundamentalista. A que preço? Coisa difícil de quantificar. Mas os cacos são visíveis e vão demorar anos a reunir: o maior êxodo de todos os tempos de profissionais altamente qualificados; a maior fraude de que há memória quando machadou com critérios de vergonha carreiras de uma vida; o retorno à filosofia de que o trabalho é obrigação de escravos. Não tem vergonha desta coroa? Não tem vergonha de vexar uma classe com a obrigação de entregar objectivos individuais no fim do ano, como se ele estivesse a começar? Acha sério mascarar de rigor a farsa que promoveu?
A senhora ministra falhou quando fez aprovar um modelo de gestão de escolas, castrador e centralizador. Não repito o que então aqui escrevi. Ainda os directores estão a chegar aos postos de obediência e já os factos me dão razão. Invoco o caso do Agrupamento de Santo Onofre, onde gestores competentes e legalmente providos foram vergonhosamente substituídos; lembro-lhe a história canalha de Fafe, prenúncio caricato de onde nos levará a municipalização e a entrega da gestão aos arrivistas partidários; confronto-a com o silêncio cúmplice sobre a suspensão arbitrária de um professor em Tavira, porque o filho do autarca se magoou numa actividade escolar, sem qualquer culpa do docente. Dá-se conta que não tem qualquer autoridade moral para falar de autonomia das escolas?
A senhora ministra falhou quando promoveu a escola que não ensina. Mostre ao país, a senhora que tanto ama as estatísticas, quanto tempo se leva hoje para fazer, de uma só tirada, os 7º, 8º e 9º anos e, depois, os 10º, 11º e 12º. E sustente, perante quem conhece, a pantomina que se desenvolveu à volta do politicamente correcto conceito de escola inclusiva, para lá manter, a qualquer preço, em ridículas formações pseudoprofissionais, os que antes sujavam as estatísticas que a senhora oportunistamente branqueou. Ouse vir discutir publicamente a demagogia de prolongar até aos 18 anos a obrigatoriedade de frequentar a escola, no contexto do país real e quando estamos ainda tão longe de cumprir o actual período compulsivo, duas décadas volvidas sobre o respectivo anúncio. Do mesmo passo, esclareça (ainda que aqui a responsabilidade seja partilhada) que diferenças existem entre o anterior exame ad hoc e o pós-moderno mais de 23, para entrar na universidade. Compreendo, portanto, que no pastel kafkiano a que chamou estatuto de carreira não se encontre o vocábulo ensinar. Lá nisso, reconheço, foi coerente. Só lhe faltou mudar o nome à casa onde pontifica. Devia chamar-se agora, com propriedade, Ministério da Certificação e das Novas Oportunidades. Não tem remorsos?
A senhora ministra falhou rotundamente quando promoveu um estatuto do aluno que não ajuda a lidar com a indisciplina generalizada; quando deu aos alunos o sinal de que podem passar sem pôr os pés nas aulas e, pasme-se, manifestou a vontade de proibir as reprovações, segundo a senhora, coisa retrógrada. A senhora ministra falhou quando defendeu uma sociedade onde os pais não têm tempo para estar com os filhos. A senhora ministra falhou quando permitiu, repetidas vezes, que crianças fossem usadas em actividades de mera propaganda política. A senhora ministra falhou quando encomendou e pagou a peso de ouro trabalhos que não foram executados, para além de serem de utilidade mais que duvidosa. Voltou a falhar quando deslocou para os tribunais o local de interlocução com os seus parceiros sociais, consciente de que o Direito nem sempre tem que ver com a Justiça. Falhou também quando baniu clássicos da nossa literatura e permitiu a redução da Filosofia. Falhou ainda quando manipulou estatisticamente os resultados escolares e exibiu os que não se verificaram. Falhou igualmente quando votou ao abandono crianças deficientes e professores nas vascas da morte. Falhou, por fim, quando se deixou implicar no logro do falso relatório da OCDE e no deslumbramento saloio do Magalhães.
Por tudo isto e muito mais que aqui não cabe, a senhora é, em minha opinião, uma ministra falhada. Parte sem que eu por si nutra qualquer espécie de respeito político ou intelectual.
Santana Castilho, Público, 13 de Maio de 2009.

Senhora ministra: Dentro de poucos meses partirá para um exílio dourado. Obviamente que partirá, seja qual for o resultado das eleições. É tempo de lhe dizer, com frontalidade, e antes que o ruído da campanha apague o meu grito de revolta, como a considero responsável por quatro anos de Educação queimada. Este qualificativo metafórico ganhará realismo à medida que aqui for invocando os falhanços mais censuráveis, alguns apenas, dos muitos que fazem de si, politicamente, uma predadora do futuro da escola pública. Se se sentir injustiçada, tenha a coragem de marcar o contraditório, cara a cara, onde e quando quiser, perante professores, alunos, pais e demais cidadãos votantes. Por uma vez, sairia do ciclo propagandístico em que sempre se moveu.
A senhora ministra falhou estrondosamente com o sistema de avaliação do desempenho dos professores, a vertente mais mediática da enormidade a que chamou estatuto de carreira. A sua intenção não foi, nunca, como lhe competia, dignificar o exercício de uma profissão estratégica para o desenvolvimento do país. A senhora anda há um ano a confundir classificação do desempenho com avaliação do desempenho e demonstrou ignorar o que de mais sério existe na produção teórica sobre a matéria. Permitiu e alimentou mentiras inomináveis sobre o problema. O saldo é claro e incontestável: da própria aberração técnica que os seus especialistas pariram nada resta. Terá os professores classificados com bom, pelo menos, exactamente o que criticava quando começou a sua cruzada, ridiculamente fundamentalista. A que preço? Coisa difícil de quantificar. Mas os cacos são visíveis e vão demorar anos a reunir: o maior êxodo de todos os tempos de profissionais altamente qualificados; a maior fraude de que há memória quando machadou com critérios de vergonha carreiras de uma vida; o retorno à filosofia de que o trabalho é obrigação de escravos. Não tem vergonha desta coroa? Não tem vergonha de vexar uma classe com a obrigação de entregar objectivos individuais no fim do ano, como se ele estivesse a começar? Acha sério mascarar de rigor a farsa que promoveu?
A senhora ministra falhou quando fez aprovar um modelo de gestão de escolas, castrador e centralizador. Não repito o que então aqui escrevi. Ainda os directores estão a chegar aos postos de obediência e já os factos me dão razão. Invoco o caso do Agrupamento de Santo Onofre, onde gestores competentes e legalmente providos foram vergonhosamente substituídos; lembro-lhe a história canalha de Fafe, prenúncio caricato de onde nos levará a municipalização e a entrega da gestão aos arrivistas partidários; confronto-a com o silêncio cúmplice sobre a suspensão arbitrária de um professor em Tavira, porque o filho do autarca se magoou numa actividade escolar, sem qualquer culpa do docente. Dá-se conta que não tem qualquer autoridade moral para falar de autonomia das escolas?
A senhora ministra falhou quando promoveu a escola que não ensina. Mostre ao país, a senhora que tanto ama as estatísticas, quanto tempo se leva hoje para fazer, de uma só tirada, os 7º, 8º e 9º anos e, depois, os 10º, 11º e 12º. E sustente, perante quem conhece, a pantomina que se desenvolveu à volta do politicamente correcto conceito de escola inclusiva, para lá manter, a qualquer preço, em ridículas formações pseudoprofissionais, os que antes sujavam as estatísticas que a senhora oportunistamente branqueou. Ouse vir discutir publicamente a demagogia de prolongar até aos 18 anos a obrigatoriedade de frequentar a escola, no contexto do país real e quando estamos ainda tão longe de cumprir o actual período compulsivo, duas décadas volvidas sobre o respectivo anúncio. Do mesmo passo, esclareça (ainda que aqui a responsabilidade seja partilhada) que diferenças existem entre o anterior exame ad hoc e o pós-moderno mais de 23, para entrar na universidade. Compreendo, portanto, que no pastel kafkiano a que chamou estatuto de carreira não se encontre o vocábulo ensinar. Lá nisso, reconheço, foi coerente. Só lhe faltou mudar o nome à casa onde pontifica. Devia chamar-se agora, com propriedade, Ministério da Certificação e das Novas Oportunidades. Não tem remorsos?
A senhora ministra falhou rotundamente quando promoveu um estatuto do aluno que não ajuda a lidar com a indisciplina generalizada; quando deu aos alunos o sinal de que podem passar sem pôr os pés nas aulas e, pasme-se, manifestou a vontade de proibir as reprovações, segundo a senhora, coisa retrógrada. A senhora ministra falhou quando defendeu uma sociedade onde os pais não têm tempo para estar com os filhos. A senhora ministra falhou quando permitiu, repetidas vezes, que crianças fossem usadas em actividades de mera propaganda política. A senhora ministra falhou quando encomendou e pagou a peso de ouro trabalhos que não foram executados, para além de serem de utilidade mais que duvidosa. Voltou a falhar quando deslocou para os tribunais o local de interlocução com os seus parceiros sociais, consciente de que o Direito nem sempre tem que ver com a Justiça. Falhou também quando baniu clássicos da nossa literatura e permitiu a redução da Filosofia. Falhou ainda quando manipulou estatisticamente os resultados escolares e exibiu os que não se verificaram. Falhou igualmente quando votou ao abandono crianças deficientes e professores nas vascas da morte. Falhou, por fim, quando se deixou implicar no logro do falso relatório da OCDE e no deslumbramento saloio do Magalhães.
Por tudo isto e muito mais que aqui não cabe, a senhora é, em minha opinião, uma ministra falhada. Parte sem que eu por si nutra qualquer espécie de respeito político ou intelectual.
Santana Castilho, Público, 13 de Maio de 2009.
21-06-2009
20-06-2009
Hoje passei a manhã no jardim: cortei a relva, replantei orquídeas, tratei dos bonsais e plantei o jasmim que a Antónia trouxe ontem. As sementes de cravo-da-índia que plantei no vaso grande da magnólia já germinaram.
Logo, o Jorge Melícias apresenta a sua poesia na Cosmorama e a Karin Somers invade o espaço com as suas esculturas. É um bom modo de encerrar para férias a nossa agenda; regressamos no princípio do outono. Mas a porta continua entreaberta, a exposição da Karin vai permanecer até ao final de Outubro de 2009. Entretanto, até meados de Julho, são editados os livros do João Moita e dos poetas brasileiros Wilmar Silva e Ricardo Corona.
Ontem o João Alfredo e a Antónia vieram jantar a minha casa. A Antónia vive perto, encontramo-nos com alguma frequência. Mas o João é brasileiro, de Mossoró, e já não nos víamos há quase 14 anos. Quando o conheci, em 1994, era ainda o Frei Mateus, monge beneditino do Mosteiro de Singeverga, que era finalista de Teologia na UCP e preparava a sua partida para o Brasil. Assim foi, o Frei Mateus (nome monástico) partiu em 1995; no final da década de 90 foi ordenado e integrou o presbitério diocesano de Mossoró; hoje trabalha na paróquia de S. José. Reencontrámo-nos depois de quase 14 anos.
Logo, o Jorge Melícias apresenta a sua poesia na Cosmorama e a Karin Somers invade o espaço com as suas esculturas. É um bom modo de encerrar para férias a nossa agenda; regressamos no princípio do outono. Mas a porta continua entreaberta, a exposição da Karin vai permanecer até ao final de Outubro de 2009. Entretanto, até meados de Julho, são editados os livros do João Moita e dos poetas brasileiros Wilmar Silva e Ricardo Corona.
Ontem o João Alfredo e a Antónia vieram jantar a minha casa. A Antónia vive perto, encontramo-nos com alguma frequência. Mas o João é brasileiro, de Mossoró, e já não nos víamos há quase 14 anos. Quando o conheci, em 1994, era ainda o Frei Mateus, monge beneditino do Mosteiro de Singeverga, que era finalista de Teologia na UCP e preparava a sua partida para o Brasil. Assim foi, o Frei Mateus (nome monástico) partiu em 1995; no final da década de 90 foi ordenado e integrou o presbitério diocesano de Mossoró; hoje trabalha na paróquia de S. José. Reencontrámo-nos depois de quase 14 anos.
19-06-2009
Esta semana fui pouco assíduo ao Equinócio de Outono.
Trabalhei na unidade lectiva 10 do manual de EMRC, sobre a arte cristã. No Colégio Luso-Francês, dividi-me entre reuniões de avaliação e vigilâncias de exames. No que diz respeito à Cosmorama, dediquei-me aos últimos pormenores da paginação do livro do João Moita (O vento soprado como sangue). Estranho que, até agora, poucos poetas tenham concorrido ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria. O prazo termina no fim de Junho (regulamento).
Nesta fase de transição (final do ano lectivo), tento criar condições para regressar ao trabalho na dissertação de doutoramento: até ao fim do mês, quero escrever um texto hermenêutico sobre Poemas (1922), trabalhar sobre referências em jornais e sobre a biblioteca pessoal do Guilherme, assim como avançar com a identificação e catalogação do espólio do poeta.
Comprei uma mochila nova. Tenho uma Lafuma desde 2000; percorri mais de 20 Caminhos, milhares de quilómetros com ela às costas. Em Setembro regressarei ao Caminho de Santiago com a minha nova Quechua.
Em O meu canto (o blogue do Juca) há um 'post' imperdível, particularmente para todas as pessoas que ainda têm iPods, iPhones, iMacs (ou quaisquer outros produtos da Apple). Amanhã (20 de Junho), pelas 21.30h., a Cosmorama acolhe a escultora Karin Somers e o poeta Jorge Melícias.
Trabalhei na unidade lectiva 10 do manual de EMRC, sobre a arte cristã. No Colégio Luso-Francês, dividi-me entre reuniões de avaliação e vigilâncias de exames. No que diz respeito à Cosmorama, dediquei-me aos últimos pormenores da paginação do livro do João Moita (O vento soprado como sangue). Estranho que, até agora, poucos poetas tenham concorrido ao Prémio de Poesia Guilherme de Faria. O prazo termina no fim de Junho (regulamento).
Nesta fase de transição (final do ano lectivo), tento criar condições para regressar ao trabalho na dissertação de doutoramento: até ao fim do mês, quero escrever um texto hermenêutico sobre Poemas (1922), trabalhar sobre referências em jornais e sobre a biblioteca pessoal do Guilherme, assim como avançar com a identificação e catalogação do espólio do poeta.
Comprei uma mochila nova. Tenho uma Lafuma desde 2000; percorri mais de 20 Caminhos, milhares de quilómetros com ela às costas. Em Setembro regressarei ao Caminho de Santiago com a minha nova Quechua.
Em O meu canto (o blogue do Juca) há um 'post' imperdível, particularmente para todas as pessoas que ainda têm iPods, iPhones, iMacs (ou quaisquer outros produtos da Apple). Amanhã (20 de Junho), pelas 21.30h., a Cosmorama acolhe a escultora Karin Somers e o poeta Jorge Melícias.
16-06-2009
Conheço o valter hugo mãe desde 2002. Trata-se de uma pessoa reconhecidamente excêntrica, inconstante e surpreendente nos seus tão idiossincráticos processos criativos: é poeta e editor, já não é editor e muda o registo da sua poesia, aventura-se na ficção, desenha, escreve livros para crianças… agora também canta. Mas o que diferencia o valter não é a excentricidade ou o carácter polissémico da sua criatividade, o que realmente o diferencia é a qualidade intrínseca de tudo aquilo que faz.
Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio.
Meio bicho e fogo é o primeiro tema do projecto musical GOVERNO. Composto por Miguel Pedro (fundador de bandas como Mão Morta e Mundo Cão), com letra de valter hugo mãe. O projecto GOVERNO é composto por António Rafael (também dos Mãos Morta) nas teclas, Henrique Fernandes no contrabaixo, Miguel Pedro na percussão e programações, e valter hugo mãe na voz. A animação do vídeo é da autoria de Esgar Acelerado, com desenhos de Sara Macedo e do próprio.
GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.
15-06-2009
Hoje fui ao Porto. Por estes dias, 'ser do Porto', 'trabalhar no Porto' ou 'ir ao Porto' são expressões com significados diferentes. Com efeito, eu nasci no Porto, cresci no Porto, estudei em escolas do Porto; em 1990 fui viver para o Monte dos Burgos (S. Mamede Infesta), mas sociologicamente, sobretudo entre 91 e 94, pertenci a Cedofeita; depois, em 1995/96, vivi no Seminário da Sé, no epicentro histórico da cidade. Apesar de continuar a estudar Teologia (UCP, Foz) até 1999 e, depois, Filosofia Medieval (FLUP, Campo Alegre) até 2002; apesar de trabalhar no Colégio Luso-Francês (Amial) desde 2000, fui-me afastando e desafectando da cidade. Hoje redescobri o prazer de caminhar no Porto, sem pressa.

Pelas 10 horas visitei a Lurdes, no alfarrabista Chaminé da Mota. Já não passava há alguns meses pelo n.º 18 da Rua das Flores. Comprei a 4ª edição do Só (1921), de António Nobre (em óptimo estado), e um bom exemplar de Despedidas (1902), assinado por Augusto Nobre (irmão do poeta). Depois encontrei-me e almocei com o Paolo, que trabalha numa dissertação de doutoramento sobre a poesia do Daniel Faria. Tomei um café no Magestic antes de regressar a casa, mas há mais turistas do que poetas no velho café...

Pelas 10 horas visitei a Lurdes, no alfarrabista Chaminé da Mota. Já não passava há alguns meses pelo n.º 18 da Rua das Flores. Comprei a 4ª edição do Só (1921), de António Nobre (em óptimo estado), e um bom exemplar de Despedidas (1902), assinado por Augusto Nobre (irmão do poeta). Depois encontrei-me e almocei com o Paolo, que trabalha numa dissertação de doutoramento sobre a poesia do Daniel Faria. Tomei um café no Magestic antes de regressar a casa, mas há mais turistas do que poetas no velho café...
13-06-2009
A Ana nasceu há 33 anos. Escrevi recentemente, a propósito do aniversário da Natália, que o tempo passa inexoravelmente, mas a vida partilhada recolhe porções orgânicas de alegria e redenção.
No dia 20 de Junho (sábado), pelas 21.30h., no espaço Cosmorama (Rua Calouste Gulbenkian, 201 / Porto), será apresentada a poesia reunida do Jorge Melícias (Disrupção) e inaugurada uma exposição de esculturas de Karin Somers. Num contexto informal, o Fernando de Castro Branco falará sobre a poesia do Jorge, enquanto a Elsa Cerqueira falará sobre as esculturas da Karin.
Estou a reler As flores do mal de Baudelaire. Comprei a edição da Assírio & Alvim da Poesia de Álvaro de Campos. No dia 13 de Junho, há 121 anos, nasceu o Fernando Pessoa e, há 778, morreu o Santo António.
No dia 20 de Junho (sábado), pelas 21.30h., no espaço Cosmorama (Rua Calouste Gulbenkian, 201 / Porto), será apresentada a poesia reunida do Jorge Melícias (Disrupção) e inaugurada uma exposição de esculturas de Karin Somers. Num contexto informal, o Fernando de Castro Branco falará sobre a poesia do Jorge, enquanto a Elsa Cerqueira falará sobre as esculturas da Karin.
Estou a reler As flores do mal de Baudelaire. Comprei a edição da Assírio & Alvim da Poesia de Álvaro de Campos. No dia 13 de Junho, há 121 anos, nasceu o Fernando Pessoa e, há 778, morreu o Santo António.






