23/12/09

Finalmente o descanso, depois das reuniões de avaliação.
Estes dias que antecedem o Natal têm sido muito intensos: reencontrei esse tempo/espaço cheio de graça que é o almoço com o P. Leonel e com a Madalena; passei a tarde de 3ª-feira com o D. Manuel Clemente (lanchámos na companhia da Eulália e da Lurdes na Casa dos Macedos, em Amarante); passei muitas horas com colegas e amigos do CLF, nas reuniões de avaliação do 1º Período e na Ceia de Natal. No que diz respeito aos alunos, o Fernando Mota escreveu no seu blogue acerca da experiência da Oração do Advento na Capela do CLF, entre 14 e 18 de Dezembro, com 32 turmas, mais de 800 alunos.
Hoje o Juca celebra o 36º aniversário.

Enquanto folheava a Sábado desta semana, reparei nesta imagem:



Não se trata de uma novidade, mas da visualização esquemática de uma década de futebol em Portugal. É verdade que "contra factos não há argumentos" e também é verdade que "uma imagem vale mais que mil palavras".

20/12/09

Domingo frio. A Casa parece ainda mais quente por estes dias, entre filhos e livros, reaprendo a difícil missão de guardar o futuro. Sinto um frémito de Caminho.



Uma questão prosaica: o deputado do PS Sérgio Sousa Pinto disse que o deputado do PSD Carlos Peixoto dirigiu-se "a um Portugal cavernícola que felizmente já não existe". Não sei a quem se dirigiu o deputado do PSD, mas o comentário de Sérgio Sousa Pinto justifica a crença de que ainda existe um "Portugal cavernícola", pelo menos na Assembleia da República. Felizmente, a leitura de O Homem Eterno de Chesterton permitiu que desmistificasse o conceito de "cavernícola".
Outra questão prosaica: o FC Porto, certamente por cortesia e espírito natalício, permitiu que o SLB terminasse 2009 em 2º lugar... e não em 3º ou 4º como tem sido habitual.

18/12/09



Percorre este livro de 102 páginas uma década de poesia (2000-2009) de José Rui Teixeira. Os primeiros poemas oscilam entre o medo ("Houve um tempo em que eu desconhecia o medo") e a morte: "Mexemos excessivamente nos mortos". A memória da infância não é um paraíso perdido mas sim um olhar de morte: "Quando eu era criança os velhos escolhiam dias amarelos para morrer." Além do povoamento, há nestes poemas uma paisagem desolada: "Quando eu era criança anoitecia/ sobre a verdade intrínseca de haver ruas/ pequenas e horizontes pequenos/ no fundo das ruas". Num espaço de morte e de hostilidade, só o amor pode ser resposta: "Eu nasci anos depois, já tinham morrido/ muitos daqueles que mais tarde viria a amar". Porque o lugar do poema é o lugar da terra, entre a morte e a vida, entre o amor e o ódio, entre o vazio e o esplendor: "A minha terra é onde descansam os meus mortos/ um país com plátanos à beira dos caminhos/ e mulheres com epistemas na voz." O último conjunto lembra que o poeta é, muitas vezes o profeta, castigado por "demónios antigos": "Zerbino adormecia na periferia da infância, sob o silêncio ensimesmado de árvores lúgubres ou de um amarelecido domingo do tempo comum".

José do Carmo Francisco

17/12/09

Está frio. Continuo um pouco ausente, do Equinócio de Outono e de mim próprio… Corrigi os testes de Filosofia do 10º ano, terminei a UL 10 do novo manual de EMRC, agora embrenho-me nas reuniões de avaliação. Por estes dias regresso ao Guilherme de Faria… Continuo a ouvir Rodrigo Leão.

14/12/09



Não há prova possível, mas mesmo assim acredito que seja verdade: existem lugares no mundo onde à nossa chegada ou partida se acrescentam, de forma misteriosa, as emoções de todos os que lá chegaram ou de lá partiram antes de nós. No pórtico da catedral de Santiago de Compostela encontra-se uma coluna em mármore com marcas profundas de dedos, uma garra comovida, expressionista, moldada por milhões de mãos, entre as quais a minha. Mas dizer "entre as quais a minha" já é uma forma de adulterar, pois nunca me agarrei à coluna com toda a emoção que se sente ao fim de uma viagem a pé que levou mais de um ano. Não vivia na Idade Média, não era crente e vinha de automóvel. Se desconsiderarmos a minha mão, se eu nunca ali tivesse estado, aquela garra lá continuaria, graças aos dedos de todos os mortos que desgastaram o mármore duro. Mesmo assim, ao colocar a minha mão naquele negativo de uma mão, participei de uma maneira misteriosa numa obra de arte colectiva. Uma ideia que se materializa é sempre um fenómeno espantoso. A força de uma ideia levou soberanos, lavradores e monges a pôr a mão exactamente naquele sítio naquela coluna, cada mão individual tirava uma ínfima quantidade do mármore duríssimo, tornando visível, justamente pelo mármore que tinha desaparecido, a forma de uma mão.

Cees Nooteboom, O (des)caminho de Santiago.

13/12/09

No contexto do espírito revivalista do Romantismo surge o gosto pela recriação de elementos da arte medieval, especialmente do gótico. Assim, a partir de meados do século XVIII, o victorian gothic (gótico victoriano) impõem-se em Inglaterra; também em França, muito por responsabilidade de Viollet-le-Duc, o Neogótico assume-se como uma importante tendência da arquitectura religiosa no século XIX.
Um exemplo muito interessante é o da Catedral de Santa Eulália, em Barcelona. Quem hoje olha para a fachada da catedral medieval, não imagina que antes do final do século XIX o seu aspecto era este:



Com efeito, após quase 400 anos sem obras significativas, a Exposição Universal de 1888 serviu de pretexto para que Josep Oriol Mestres desenhasse a actual fachada neogótica, inspirado pelo projecto de Carles Galtés de Ruan, datado de 1408.

12/12/09



O padre e poeta José Tolentino Mendonça (director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura) considera que a atribuição do Prémio Pessoa 2009 a D. Manuel Clemente distingue "uma das grandes testemunhas do nosso tempo": "D. Manuel Clemente é um dos pensadores mais originais e vivos deste tempo português e alguém que faz do pensamento um exercício de responsabilidade ética". Para Tolentino Mendonça, o magistério do Bispo do Porto "tem sido também um exemplo do que é o diálogo entre a fé e a cultura": "A mim toca-me sempre o modo como a cultura aparece no magistério de D. Manuel Clemente, não como um território de fronteira, que ele visita ocasionalmente, mas como o lugar por excelência onde ele inscreve a tradição cristã e o seu trabalho de pastor".
Tolentino Mendonça disse ainda que este é "um prémio importante, precisamente porque mostra a relevância do pensamento e da acção de D. Manuel Clemente não apenas para o espaço eclesial, mas também para o mundo da cultura. Ele é alguém de que a cultura tem necessidade".

11/12/09

Ando um pouco ausente, do Equinócio de Outono e de mim próprio…
O meio escolar é muito absorvente e o CLF impõe um quotidiano muito intenso, que implica a relação directa e dialógica com centenas de pessoas todos os dias, a dimensão pedagógica (preparação de aulas, leccionação, correcção de testes, avaliação, reuniões…) e o projecto de evangelização. Este é o meu 10º ano no CLF e ainda não sei como é que se assume mais três décadas com a mesma intensidade… e eu não sei se consigo viver ou trabalhar com menos intensidade.
Hoje fui a Lisboa… comove-me sempre regressar ao Chiado e à casa do Guilherme, na Rua da Horta Seca. Passei pela livraria da Margarida Marques, almocei com a D. Teresa e com o Gonçalo Leite de Faria, depois passei pela livraria da Gabriela Gouveia. Não sei como dizer que me comove sempre reencontrar a luz de Lisboa.
Na 4ª-feira estive em Caminha, na celebração do centenário do nascimento do António Pedro. Foi muito agradável. A exposição comemorativa (inaugurada no dia 9 de Dezembro) permanecerá na galeria da Câmara Municipal de Caminha até 28 de Fevereiro de 2010 e é imperdível.
Continuo a ouvir Rodrigo Leão e a corrigir testes. Aproveito para divulgar o blogue do Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura / Porto.

10/12/09



No dia 12 de Dezembro (sábado), entre as 18 e as 23 horas, a Cosmorama (Tropelias & Companhia . Rua Calouste Gulbenkian, n.º 201 . Porto) será um local de passagem e de encontro para poetas e leitores de poesia, num ambiente informal, com café, chá e livros.

09/12/09



António Pedro nasceu há 100 anos, na Praia (Cabo Verde).

07/12/09



Rodrigo Leão . Cathy (Neil Hannon)
A uns embala... a outros tira o sono.

06/12/09

A Beatriz nasceu há dois anos. Este foi, por isso, um Domingo intenso, na companhia de familiares e amigos. Ainda assim, consegui actualizar o meu 'curriculum vitae' na Diáspora e apresentar um novo blogue: Biblioteca, um espaço dedicado aos meus livros, à literatura portuguesa e à bibliofilia.
O Jorge Paulo escreveu no seu blogue – O ouro do silêncio – um apontamento sobre a minha Diáspora:



"Logo que me enviou a colectânea dos seus poemas, li a primeira parte. Imediatamente, como um relâmpago inesperado, a luz inquieta dos seus versos deslumbrou-me. Tive de adiar a leitura integral do livro para um tempo em que não estivesse tão preenchido por preocupações diárias, que nos roubam a calma necessária ao desfrute daquilo que vale verdadeiramente a pena. Hoje li, ou melhor, saboreei demoradamente os seus assombrosos versos. A qualidade do que escreve eleva-o, em minha modesta opinião, ao que de melhor a poesia portuguesa tem produzido.
O trabalho intenso sobre a língua, transfigurando-a em objecto artístico de altíssimo valor estético, permite reconhecer nas infracções gramaticais a liberdade que o poeta cultiva na sua arte de refazer a língua (cf. p. 33: a posposição do pronome clítico em oração subordinada). Imagens fortemente trabalhadas recriam universos que se aninham na realidade e que a refazem, numa espécie de utopia que se torna presente no mundo ficcional e existencial do poema.
Os temas, constituídos também por figuras tutelares que povoam os versos, como a figura recorrente da mãe, estendem-se da morte, ao amor, ao corpo, à mulher… a Deus. Também a condição de filho, anunciando exactamente na sua presença a morte inevitável dos pais. Também a condição materna da mulher, cujo sentido se esgota na ausência dos filhos, quando o vazio se instala, incapaz de ser novamente preenchido. Também o amor, feito de ausência e abandono, que é, afinal, uma metáfora da morte. Porque se morre de muitas maneiras e a morte não se realiza apenas no último momento da vida física. É condição de todo o existente; perpassa cada segundo da vida, sulcando o tempo até à raiz. Também os lugares do medo que se instalam no coração humano submergindo e sendo submersos pela presença intrigante de Deus. E é assim que o elemento luminoso por excelência percorre toda a construção poética, sobretudo nas marcas bíblicas evidentes. As águas primordiais, sobre as quais paira o Espírito de Deus, criando ordem no caos — que afinal é o mesmo caos dos lugares do medo, infestando o coração de cada ser humano —, a força demolidora de Caim, a multiplicação dos pães e dos peixes, o dilúvio que dilacera o corpo do mundo, os pães ázimos da Páscoa regeneradora, o Verbo criador recuperando o início do mundo no instante do poema.
Por tudo isto e ainda por tudo o que não fui capaz de ver nesta obra de enorme valor artístico, aqui fica o meu agradecimento a José Rui Teixeira e ao seu livro Diáspora."

05/12/09

Ontem terminei a Unidade Lectiva 10 do manual de EMRC Alicerces. Trabalhei sobre o tema da Arte cristã durante os últimos meses. Agora só falta escolher algumas imagens e um ou outro pormenor. Estou muito cansado, mas fiquei satisfeito com o resultado final.
Hoje, o carteiro veio carregado: o Adelino Pires enviou-me À Ventura (1901) de Teixeira de Pascoaes e A invasão dos judeus (1924) de Mario Saa; o valter hugo mãe enviou-me o Programa sentimental do 'seu' Governo; e o João Manuel Ribeiro enviou-me o seu novo livro de poesia: Trajectória inconsútil do desejo.





Agora impõe-se a correcção dos testes de Filosofia do 10º ano…
Para quem gosta de Teixeira de Pascoaes, o Adelino Pires tem à venda um manuscrito e dois dos melhores livros do Poeta de Amarante, em 1ª edição: Jesus e Pan (1903) e Marános (1911).

30/11/09

Há um sleepless heart que não me abandona o coração.

29/11/09

Ontem visitei a Feira de Antiguidades e do Livro Antigo na Alfândega do Porto. Estive a conversar com o Manuel Santos e comprei-lhe a 2ª edição das Canções (1922) do António Botto. Como se depreende pelo 'post' anterior, fui ao concerto do Rodrigo Leão no Coliseu… uma experiência verdadeiramente indescritível.
Com a ajuda da Ana, da Marta, do Edmundo e do Jorge, tenho actualizado a secção de Imprensa da Cosmorama.

Dezembro / agenda: no dia 1, pelas 21 horas, na Fraternidade dos Capuchinhos (Paróquia do Amial), falarei sobre A Imaculada Conceição na Poesia Portuguesa, no âmbito das comemorações dos 50 anos da Igreja da Imaculada Conceição (Amial); no dia 3, pelas 15 horas, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apresentarei a comunicação Guilherme de Faria: entre a identidade e o anacronismo, no Colóquio Internacional Literaturas Nacionais: continuidade ou fim.


Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável.
Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável.
Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável.
Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável. Inefável.
Inefável. Rodrigo Leão.

27/11/09

Hoje tive reunião da equipa de elaboração do manual de EMRC para o Ensino Secundário do SNEC – Alicerces. Confesso que estive um pouco distante… por cansaço. Estes dias têm sido muito intensos: o Advento implica responsabilidades pastorais no CLF e no Centro Catecumenal; já tenho em casa dezenas de testes de Filosofia para corrigir; a unidade lectiva sobre a arte cristã está praticamente terminada, mas faltam os morosos pormenores; por outro lado, a Cosmorama respira fundo antes de entrar em 2010 e o trabalho de doutoramento sobre o Guilherme de Faria aguarda algumas redefinições importantes para o início do novo ano. Sinto saudades do Caminho e algum cansaço, desgate ou desmotivação em relação ao CLF. O Manuel Santos enviou-me por correio dois livros de Mario Saa: Evangelho de S. Vito (1917) e Camões no Maranhão (1922). A Andreia Brites escreveu sobre a Diáspora na revista Os meus livros.
Hoje, na revisão da unidade lectiva do António Jorge, sobre a dignidade do trabalho, li este texto admirável de João César das Neves:



Um dia, o rei Luís IX, S. Luís de França, visitou as obras da catedral de Chartres, em reconstrução depois do seu incêndio em 1194, causado por um raio. O rei, passeando pela construção, ia perguntando a cada um o que estava a fazer. As respostas foram várias.
Um carpinteiro afirmou-lhe que estava a fazer um dos bancos da nave central; um pedreiro lamentou-se que estava a trabalhar para ganhar a vida e dar de comer aos filhos; um escultor, apontando para um capitel, a que dava os últimos retoques, explicou que estava a seguir as novas regras da arte gótica, criando uma linha decorativa revolucionária.
Depois de perguntar a muita gente e de ter recebido respostas variadas, o rei encontrou, num canto escuro, um velhinho curvado que varria aparas de madeira. Quando o rei lhe perguntou o que estava a fazer, o velho respondeu: "Estou a construir uma catedral".


Matthias Grünewald (1470-1528) é considerado um precursor do expressionismo e um dos maiores pintores germânicos do gótico tardio. Na sua Crucificação (1512-16), "o corpo de Cristo é gigantesco, atrozmente mortificado, eriçado de espinhos, tem os traços esverdeados da decomposição. Os pés estão deformados e as mãos são a expressão mais genial da dor física. Este cadáver parece rivalizar em horror com a visão que santa Brígida descreve nas suas Revelações: «Os seus olhos, as suas orelhas e a sua barba escorriam sangue; as suas mandíbulas estavam relaxadas, a boca aberta, a língua sanguinolenta. O ventre, puxado para trás, tocava nas costas como se já não tivesse intestinos»" (Manuel Jover). Alguns historiadores afirmam que Grünewald conhecia os escritos da mística sueca. Há também quem diga que as feridas deste Cristo pintado por volta de 1512 não são mais do que sinais da sífilis que então grassava na Europa e da peste bubónica do século XIV, ainda presente na memória colectiva.

24/11/09



Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento curioso arraste para longe de ti; um coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; um coração recto que nenhuma intenção equívoca desvie; um coração firme, que nenhuma adversidade abale; um coração livre, que nenhuma paixão subjugue.
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que te conheça, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que te possua, enfim.

Tomás de Aquino (1225-1274)

23/11/09

Segunda-feira. Hoje passei a manhã em aulas no CLF. Senti que teria sido um bom dia para deixar de ser professor. Da parte da tarde fui a Caminha, onde reuni com a Dr.ª Celina Lopes na Biblioteca Municipal, a propósito da edição da Poesia Completa de António Pedro.
Ontem o Benfica foi eliminado da Taça de Portugal. Mas não há razões para desanimar: neste mesmo mês de Novembro, o SLB venceu o Troféu Pauleta; recordo que, em 2009/10, depois da Eusébio Cup, o Troféu Pauleta é a segunda competição que o SLB vence com o nome de um ex-jogador de futebol. É quase certo que o Guimarães não teria hipóteses se a Taça de Portugal se chamasse, por exemplo, Taça Fernando Chalana. Fica a sugestão.
Depois da Oprah Winfrey ter anunciado o fim do seu programa televisivo e depois de ter visto no National Geographic Channel que, de acordo com a mitologia maia, o mundo vai acabar no dia 21 de Dezembro de 2012, resta-me anunciar que o Equinócio de Outono, no final de 2009, entrará num estado de letargia, apatia, indolência extrema... por tempo indeterminado.

22/11/09



Numa carta de 3 de Janeiro de 1926, em post-scriptum, Guilherme de Faria pede a Manuel de Castro: "E eu, como estás aí no campo, peço-te que procures uma flor chamada Saudade e que a desenhes ou peças à Emilinha o enorme favor de a desenhar, com o seu talento. Se ela algum dia se dispuser a fazer a capa do meu futuro livro, que faça um friso de saudades estilizadas, ou de qualquer forma, que eu muito, e muito e muito lhe agradeço!"
Com efeito, o livro Saudade Minha, impresso no dia 7 de Maio de 1926, tem na capa a 'flor da saudade' que passa então a ser o ex-libris do poeta, presente nas capas dos seus livros e no seu jazigo, no Cemitério dos Prazeres. A "flor chamada Saudade" é uma flor muito comum em Portugal no século XIX, utilizada como elemento decorativo nos cemitérios.
Percebe-se que Guilherme pretende timidamente que seja Emília de Castro a desenhar a 'flor da saudade', o que guarda um certo dramatismo: o poeta deseja que a mulher na qual projecta o seu amor desenhe o seu ex-libris, que tem iniludivelmente uma conotação fúnebre. Emília desenhou a 'flor da saudade' e Guilherme, no exemplar de Saudade Minha que lhe dedica, escreve: "À Emilinha, com a maior simpatia e mil agradecimentos pela sua saudade que é o único e maravilhoso encanto deste livro."



Em Julho, com a 1ª edição da Clepsidra (1920) nas mãos, percebi que Guilherme de Faria se inspirou na edição de Camilo Pessanha para a publicação dos seus Poemas, em 1922: o tipo de papel, o modo de apresentação dos títulos, a disposição dos sonetos, etc. Na semana passada adquiri a 1ª edição de Ilhas de Bruma (1917) e, no frontispício do livro de Afonso Lopes Vieira, encontrei a 'flor da saudade', reminiscência de um estado de espírito de diáspora, promessa de um reencontro…

21/11/09

Hoje lembrei-me das palavras do Fernando de Castro Branco, a propósito da minha poesia: "O poeta age na margem do visível para surpreender o espaço do invisível, através da matéria dizível anseia a decifração e o reconhecimento do indizível, nos mapas parados do corpo exposto procura perscrutar a voz do espírito, move-se em estratégicas zonas de sombra para melhor contemplar a luz."


A glorificação da Cruz, Maurice Denis (1870-1943).

O Nuno celebra o 17º aniversário.
Estamos a actualizar a secção destinada à Imprensa no site/blog da Cosmorama. Também actualizei o blog que dedico ao poeta Guilherme de Faria.

20/11/09

O Zé António folheava uma edição do Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular de promoção dos Caminhos de Santiago / Xacobeo 2010, daquelas que se distribuem gratuitamente nos aeroportos ou nos postos de turismo, e encontrou casualmente rostos familiares:





Trata-se da chegada a Santiago no Caminho de Fevereiro de 2008. As fotografias não são melhores do que os milhares de documentos que fomos juntando em tantos Caminhos, mas o contexto em que foram descobertas adiciona-lhes a agradável sensação de surpresa.
Ao olhar para a Mariana Sarmento apercebi-me do modo como o tempo passa: então no 8º ano, a Mariana percorria o seu 1º Caminho; entretanto, regressou em Set. de 2008, Fev. e Set. de 2009; em Julho participou na Oficina de Poesia, em Barcelona; é minha aluna desde Set. de 2004 e, passados cinco anos, chegou ao Ensino Secundário; nos próximos três anos partilharemos mais de 300 tempos lectivos, no contexto das disciplinas de Filosofia e EMRC, provavelmente reencontrar-nos-emos no Caminho, em Barcelona, etc., etc. É impressionante o modo como o tempo passa e a vida que nesse tempo se partilha.

Em vinte dias, mais de 500 pessoas viram o Caminho CLF no YouTube:

19/11/09


O aconchego dos outros . Karin Somers

Em Julho de 2008 visitei a exposição O efeito dos dias, no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, com umas vinte peças da escultora que nasceu em Antuérpia, em 1962. Fiquei sinceramente muito afectado. O trabalho de Karin Somers é habitado por uma verdade impressiva, onírica e poética.
Senti que Os sonhos imprecisos (a escultura que habita o Equinócio de Outono) é uma metáfora da condição de ser-homem, tão teluricamente misturado com a terra e tão escatologicamente saudoso do céu; feito do húmus que o aconchega de morte, voltado para o céu que o inunda de vida; esfinge do tempo antigo e do tempo novo.
O Guardião do Tempo é, também, uma peça impressiva, que guarda algo de telúrico e ancestral como um fóssil; uma porção de transcendência sugere que das fendas do seu tronco romperá a luz de um coração de carne, uma dádiva à terra e ao céu; e a expressão de um rosto tão humano repousa na textura azul das asas feitas para o ofício de voar.
Lembrei-me do que escreveu José Marinho: "Não pode haver uma única via verdadeira para a verdade, mas tantas quantas são os imensamente vários caminhos dos homens. Direi que há uma via única da verdade, mas não uma via única para a verdade. E poderei acrescentar que me não foi fácil chegar a vê-lo. Longo aprendizado esse, e não alegre, mas dramático e doloroso. Os caminhos do homem são veredas ou atalhos. A única via está neles, e o sabiam e disseram os autênticos filósofos e teólogos." A Karin Somers pode não ter pretensões filosóficas ou teológicas, mas as suas esculturas têm uma rara densidade filosófica e teológica e, à luz de uma hermenêutica cristã, materializam as mais profundas formulações da protologia e da escatologia.
Memória da apresentação de Diáspora, nas palavras da Maximina Girão:




Jornal Poetas & Trovadores (n.º 50 Outubro/Dezembro 2009, 3ª série, ano XXIX).