A Beatriz nasceu há dois anos. Este foi, por isso, um Domingo intenso, na companhia de familiares e amigos. Ainda assim, consegui actualizar o meu 'curriculum vitae' na
Diáspora e apresentar um novo blogue:
Biblioteca, um espaço dedicado aos meus livros, à literatura portuguesa e à bibliofilia.
O Jorge Paulo escreveu no seu blogue –
O ouro do silêncio – um apontamento sobre a minha
Diáspora:

"Logo que me enviou a colectânea dos seus poemas, li a primeira parte. Imediatamente, como um relâmpago inesperado, a luz inquieta dos seus versos deslumbrou-me. Tive de adiar a leitura integral do livro para um tempo em que não estivesse tão preenchido por preocupações diárias, que nos roubam a calma necessária ao desfrute daquilo que vale verdadeiramente a pena. Hoje li, ou melhor, saboreei demoradamente os seus assombrosos versos. A qualidade do que escreve eleva-o, em minha modesta opinião, ao que de melhor a poesia portuguesa tem produzido.
O trabalho intenso sobre a língua, transfigurando-a em objecto artístico de altíssimo valor estético, permite reconhecer nas infracções gramaticais a liberdade que o poeta cultiva na sua arte de refazer a língua (cf. p. 33: a posposição do pronome clítico em oração subordinada). Imagens fortemente trabalhadas recriam universos que se aninham na realidade e que a refazem, numa espécie de utopia que se torna presente no mundo ficcional e existencial do poema.
Os temas, constituídos também por figuras tutelares que povoam os versos, como a figura recorrente da mãe, estendem-se da morte, ao amor, ao corpo, à mulher… a Deus. Também a condição de filho, anunciando exactamente na sua presença a morte inevitável dos pais. Também a condição materna da mulher, cujo sentido se esgota na ausência dos filhos, quando o vazio se instala, incapaz de ser novamente preenchido. Também o amor, feito de ausência e abandono, que é, afinal, uma metáfora da morte. Porque se morre de muitas maneiras e a morte não se realiza apenas no último momento da vida física. É condição de todo o existente; perpassa cada segundo da vida, sulcando o tempo até à raiz. Também os lugares do medo que se instalam no coração humano submergindo e sendo submersos pela presença intrigante de Deus. E é assim que o elemento luminoso por excelência percorre toda a construção poética, sobretudo nas marcas bíblicas evidentes. As águas primordiais, sobre as quais paira o Espírito de Deus, criando ordem no caos — que afinal é o mesmo caos dos lugares do medo, infestando o coração de cada ser humano —, a força demolidora de Caim, a multiplicação dos pães e dos peixes, o dilúvio que dilacera o corpo do mundo, os pães ázimos da Páscoa regeneradora, o Verbo criador recuperando o início do mundo no instante do poema.
Por tudo isto e ainda por tudo o que não fui capaz de ver nesta obra de enorme valor artístico, aqui fica o meu agradecimento a José Rui Teixeira e ao seu livro
Diáspora."